sexta-feira, 3 de junho de 2011

Neville D'Almeida exibe vídeo feito na Amazônia em Veneza e denuncia preconceito com os índios



VENEZA - A tarefa de dar conta da arte de um continente num pavilhão da Bienal de Veneza pode dar origem a distintas exposições. O curador alemão Alfons Hug, encarregado de representar a América Latina, uniu os países por um viés antropológico recorrente nas mostras que monta: a cultura indígena, a destruição da natureza e a relação de subordinação do continente à Europa e aos EUA. Numa bienal internacional, o conjunto de obras com esses traços pode sublinhar clichês. Mas não para o cineasta Neville D'Almeida, que representa o Brasil com o vídeo "Verde moreno", sobre índios da Amazônia.
- Não importa como a Europa olha, os artistas não pensam nisso. A arte contemporânea está muito ligada à tecnologia, mas a arte latino-americana está ligada ao humanismo. Falta poesia na arte - diz Neville.
O artista foi convidado a participar do pavilhão - denominado "Entre siempre y jamás", verso de um poema do uruguaio Mario Benedetti - com "Tambamazônica", mas não conseguiu patrocínio para levar a instalação, uma oca com oito projeções simultâneas. O pedido de financiamento ao Ministério da Cultura foi negado, com a justificativa de corte no orçamento, e o artista teve que levar uma obra mais simples. As imagens de "Tambamazônica" e de "Verde moreno" foram registradas nas duas semanas em que Neville e um fotógrafo conviveram com índios da Amazônia. Daí também nasceu o filme "Maxnara", nome do índio que os levou à tribo, ainda sem previsão de chegar ao cinema.
- Ofereci a uma distribuidora que não existe, a RioFilme. Ninguém quer exibir, porque ninguém quer ver filme de índio. No Brasil, querem matar índios. Pessoas que vivem em cidades no Pará falavam que índio é como rato - diz Neville. - A civilização vê o índio como artesão, eu vejo como artista. É uma diferenciação burguesa e preconceituosa. O civilizado pega a tela, faz um risco e é arte, enquanto o índio faz artesanato.
Aproveitando os dias de pré-inauguração (a mostra será aberta ao público amanhã), com muitos artistas em Veneza, Neville está fazendo um documentário sobre o pavilhão, filmando obras e entrevistando seus autores, como David Pérez, da República Dominicana, que mostra o registro de uma performance de um cego dominicano carregando no colo um haitiano sem pernas; e a equatoriana María Rosa Jijón, cujo vídeo mistura mapas da Amazônia, do Rio Napo e de protestos contra empreendimentos que interferem no meio ambiente.
Neville também tem seus protestos pessoais. E tira um papel do bolso para lembrar as coisas que tem a dizer. A primeira é que "falta cultura na arte". A outra é o espaço do pavilhão do Brasil, nesta bienal ocupado por uma instalação de Artur Barrio.
- Nunca tinha vindo e chorei quando vi o pavilhão brasileiro. É velho, feio, menor do que muita galeria. É uma vergonha, tinham que derrubar e fazer concurso para construir outro. A arte contemporânea brasileira é das melhores. Os outros pavilhões têm fila na porta, o brasileiro tem que ter também.
(Autoria de Suzana Velasco)


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